GOVERNO
CORRUPÇÃO
UMA ABORDAGEM SISTÊMICA
Observação: As conclusões deste estudo não pertencem ao autor do estudo; qualquer homem que estude a corrupção no contexto de uma sociedade humana será capaz de visualizar, distinguir e caracterizar os diversos tipos de corrupção. É fácil constatar que o tipo de corrupção tanto discutido e propalado terá sua minimização relacionada à evolução do homem
Ah, se as propriedades, títulos e cargos não fossem fruto da corrupção.
E se altas honrarias se adquirissem só pelo mérito de quem as detém.
Quantos então, não estariam hoje melhor do que estão?
Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?
William Shakespeare, o mercador de Veneza
No desenvolver de qualquer estudo pressupõe-se que o autor seja profundo conhecedor do assunto e dele possa discorrer com autoridade de ilibado saber. Isto é o que prevê o sistema que também pressupõe a existência de mecanismos limitantes, de forma a impedir que o leigo extrapole suas reais possibilidades.
Entretanto, na adoção de soluções ditas políticas, ao autor nada é solicitado além de representação política, alguma liderança e ocupar uma função de mando, situação momentânea e efêmera. O próximo a ocupar a função, nenhum compromisso apresenta com a solução adotada.
A não existência de um dimensionamento bem definido dos limites de cada governante faz com que eles trabalhem com os limites individuais, isto é, do homem que está investido na função e não com as restrições da própria função. Neste caso, todo o seu potencial destrutivo será exercido em nome de seus anseios, de sua carreira, de sua família, de seus desejos, ou seja, ele tenta construir dentro de seus valores sistêmicos e possibilidades.
Aos políticos, pela própria natureza de seu ofício, é dado o privilégio de ver de forma geral, de compreender o todo, enfim, de conhecer o sistema. A esta altura uma pergunta surge: que sistema os políticos conhecem senão aquele do qual brotaram por liderança natural ou, quem sabe, por desejo de participar também da partilha? Uma pequena reflexão nos leva ao impasse da História: ou esperamos milhares de anos aguardando a evolução e trabalhando os nossos limites, ou buscamos exemplos externos e realizamos um projeto real para nossa comunidade, povo ou nação.
Ignorando a própria ignorância, o homem trabalha como se sábio fosse. Seus olhos recusam-se a ver.
Desconhecendo a medida de sua pequenez, o político considera inexistente ou irrelevante tudo o que transcende seu conhecimento. Isto caracteriza o primeiro caso de corrupção: a omissão. Por ignorância inconfessa, tende a negar a importância de decisões que poderiam trazer grandes benefícios para a coletividade.
Na sua omissão, o indivíduo em destaque é, normalmente acompanhado por aqueles que têm por trabalho assessorá-lo para que não incorra em erro. Estes, algumas vezes conscientes de seu despreparo, evitam emitir pareceres claros conclusivos, agindo de forma extremamente cautelosa, para não desgostar o seu chefe. Configura-se, assim outra modalidade de corrupção: o medo. Medo de decidir, medo de se comprometer, medo de se apresentar como realmente é.
Outrossim, ao trabalhar somente dentro de seus limites, o homem está sempre em disputa por vitórias – este é seu projeto. Todavia, no afã do sucesso, esconde dentro si uma apreciável derrota: a incompetência.
Não há argumentos que o forcem a assumi-la e, em nome dela, mais prejuízo é causado ao sistema.
A incompetência é, certamente, a mais intensa das corrupções: ao homem não cabe o gesto humilde do não saber, que, em última análise, é o próprio saber.
Omissão, medo, incompetência. Por serem tão danosos são cuidadosamente guardados pelo corruptor, primeiro corrompido. Aí começa seu autoflagelo.
O tratamento deste trinômio é o grande desafio de hoje, se quisermos evoluir para um estágio superior ao que nos encontramos. Freqüentemente preocupamo-nos em coibir ou prevenir a corrupção em aspectos que, embora não menos condenáveis, poderiam ser fortemente atenuados se estes três, atualmente sequer cogitados como corrupção, fossem eliminados.
É fácil observar que a corrupção que hoje tentamos eliminá-la, por estar inserida na própria essência do homem, sendo parte integrante de seu projeto, existe em todos os países do mundo. Não existe meio de eliminar, podemos atenuar sua atuação, minimizando e contendo sua proliferação através do projeto de cada País.
No Brasil, o custo de tentativa de punição, freqüentemente, custa à Nação muitas vezes os seus valores-objeto, favorecendo na maioria dos casos o infrator, visto que, provada sua inocência na justiça, passa o mesmo a possuir um atestado de honestidade passado pelo governo.
Um País não é um condomínio do grupo dominante. Qualquer solução que se adote, só trará futuro se passar por um projeto global de sistema, com limites bem definidos e por todos respeitados. Os omissos, os medrosos, os incompetentes seriam naturalmente afastados, como numa cirurgia transparente aos doentes.
Aplicada a cirurgia, uma nova elite surgirá, naturalmente, rica em valores Pátrios.
A corrupção que nos preocupa hoje, então, deixaria de ser um caso político. Passaria a ser um simples caso de polícia.
A corrupção que nos preocupa hoje, então, deixaria de ser um caso político. Passaria a ser um simples caso de polícia.
Observando a corrupção nos últimos 50 anos no Brasil podemos concluir:
1) Na década de 40 a corrupção existia ligada apenas a elite dirigente, pobre e arcaica.
2) Na década de 50 a corrupção foi incrementada pelo ingresso de novos elementos na elite dirigente.
3) Na década de 60 a corrupção atingiu níveis alarmantes e em seu nome tivemos uma revolução. A corrupção ao invés de ser abolida ou minimizada criou nova força com a entrada de capital dos países ricos, grandes projetos nacionais, aumento da elite dirigente.
4) Na década de 70 continua a escalada da corrupção sendo atingida também parte da classe média. Não mais era a elite dirigente, passamos à incorporação da riqueza espúria decorrente do ganho fácil.
5) Na década de 80, a corrupção atingia quase todas as classes, de um modo geral passamos a um país onde não se trabalha para gerar riqueza.
6) No início da década de 90, agora com liberdade, elegemos um presidente que tinha como bandeira banir de vez a corrupção. Mais uma vez fomos vencidos e estamos em busca do milagre.
Podemos observar que o tipo de corrupção que tentamos eliminar existe em todos os países do mundo, inclusive no primeiro mundo, enraizada na elite dirigente, quando descoberta, punida imediatamente. Nos países do primeiro mundo as instituições normalmente operam como sistemas, os métodos e processos implantados não permitem que a corrupção se propague, sua ação é minimizada, o conhecimento técnico faz parte da riqueza nacional e o índice de analfabetismo é reduzido. Os níveis de pobreza decorrem apenas dos erros ainda existentes nos diversos sistemas.